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3 de set de 2011

Cortes para o amor



Prometo que hoje será a ultima vez... Eu prometo...
Não adianta eu me prometer. De tanto prometer para mim mesma, acabo fraquejando.
Na escola não falo com ninguém, porque tenho medo que descubram. Tenho medo de que me julguem... Não preciso ser julgada por mais ninguém...
Uma vez na escola, um garoto veio falar comigo. Eu tentei fugir, mas ele segurou no meu braço, e eu gritei "Ai!". Ele levantou a manga da minha blusa, e viu que eu estava toda cortada. Ele perguntou o que tinha acontecido, não quis responder, e fui embora. No dia seguinte, ele me fez a mesma pergunta:

Ele - O que aconteceu com você? Por que você esta com esses cortes? Quem fez isso com você?

Não respondi nada, apenas olhei nos olhos dele, e fui embora novamente. Quando cheguei em casa, peguei a gilete, fui correndo para o banheiro, me tranquei lá, e comecei a me cortar.
Na manhã seguinte, na escola, aquele mesmo garoto me diz:

Ele - Enquanto você não me responder, eu não vou parar de perguntar.

Eu - Me deixa em paz!

Ele - Me responde que eu te deixo em paz!

Eu - Foi eu quem fez isso! Pronto, falei! Agora me deixa em paz!

Ele ficou paralisado, e não disse nada. Eu fui embora mais uma vez.
Em casa, fiz a mesma coisa que faço sempre. Peguei a gilete, fui para o banheiro e me cortei. Mas desta vez, depois de fazer aquilo, ao invés de chorar, eu pensei. Pensei no garoto. Não sei porque pensei nele. Mas simplesmente pensei.
Ainda naquela noite recebi um telefonema. A voz não me era estranha. A unica coisa que disseram foi:

A voz - Me encontra em frente a escola.

Depois desligou. Fiquei com receio, mas atendi ao pedido.
Ao chegar lá, quem eu encontro? O garoto! Logo que o vi, senti vontade de correr pra longe dali. Mas não consegui. É como se estivesse presa.

Ele - Ainda bem que você veio!

Eu - O que você quer?

Ele - venha comigo.

Eu o segui. Ele me levou para a sala de projeções da escola. Quando chegamos, estava passando um vídeo.

"Comecei a me mutilar quando minha mãe morreu. Não soube como lidar com a dor, e comecei a me ferir. Eu não queria fazer isso, mas era como se alguém tivesse me obrigando... No começo eu fazia só para esquecer do mundo, mas com o tempo, foi virando um vicio. Toda vez que chegava em casa, ou estava sozinha, eu arranjava alguma coisa para me cortar. Eu sabia que isso não me fazia bem, mas não consegui mais me controlar. Uma vez resolvi contar pra alguém. Contei para a cozinheira da minha escola, ela me ajudou, com esse problema. Agora estou me recuperando, faz um ano e meio que não me corto mais. Ainda tenho as marcas, e as vezes tenho sinto vontade de fraquejar, mas ai eu lembro de tudo que passei, e mudo de ideia.
Quero dizer a todos que tem a doença da Automutilação, que procure ajuda. Essa é a melhor escolha a ser feita!"

Fiquei impressionada com o vídeo. Mais ainda por que foi o garoto que me mostrou.

Eu - O que você esta querendo me dizer com esse vídeo? Eu não tenho essa doença.
Você disse que ia me deixar em paz...

Ele - Eu estou tentando, mas você não esta querendo que eu te deixe em paz.

Eu - como assim?

Ele - Você vai ficar em paz se aceitar a minha ajuda!

Eu - Só quem tem um problema que precisa de ajuda.

Vou embora sem olhar para trás.
Chegando em casa, eu vou para meu quarto, pego a gilete, vou para o banheiro... E lembro de tudo o que ele fez... E solto a gilete. Fui dormir.
Na manhã seguinte, o garoto me diz:
Ele - Parabéns! Estou orgulhoso de você!

Eu - Do que você está falando?

Ele - Você não se cortou.

Eu - Como você sabe que eu não me cortei?

Ele - Eu infelizmente conheço cada corte seu, e não vi nenhum corte novo hoje.

Eu - Mas como você viu se eu estou com blusa de manga?

Ele - Toda manhã as 7:30 você lava o rosto, escova os dentes, e observa os cortes.

Eu - Você me espiona toda manhã?

Ele - Comecei a fazer isso, depois que descobri que você...
(Segura em meu braço, levanta a manda da minha blusa)
... Faz isso.

Eu olhei para ele, e fiquei quieta. Ele abaixa a manda da blusa e vai embora. Depois da aula ele me oferece uma carona até a minha casa. Eu aceito. Chegando em casa ele diz:

Ele - Você vai a festa da primavera?

Eu - Não.

Ele - Por que não?

Eu - Pelo mesmo motivo que você vai.

Ele - Eu vou pela diversão.

Eu - Por isso não vou. Toda festa eles arrumam alguém que faça eles se divertirem.

Ele - Se você não for eu também não vou.

Eu - Eu não vou!

E entro. Anoite ouço uma musica, e vou até a varanda para saber de onde está vindo. Advinha quem é? Aquele garoto não me deixa em paz!

Eu - O que você está fazendo aqui?

Ele - A mesma coisa que você.

Sem saber o que fazer, falo para ele entrar. Quando ele entra, minha mãe finge que nem vê. Acho que estava bêbada. Fomos para o meu quarto. Eu estava escrevendo.

Ele - Não sabia que você escrevia...
"O sol fica no céu.
Os peixes no mar.
Você no meu coração,
Porque sempre vou te amar."

Eu - Eu não sabia que você era espião!

Ele sorrir.

Eu - Por que você esta querendo me ajudar?

Ele - Pensei que você tinha dito que só os doentes precisam de ajudar.

Eu - Estou falando sério.

Ele - Quando falei com você pela primeira vez, eu iria te chamar para sair. Só que quando segurei em seu braço, você disse "Ai! " e fiquei curioso para saber o por que. Você não quis me dizer, foi ai que comecei a te vigiar toda manhã... Quis te ajudar, mas não só por ajudar, mas também para te conhecer melhor.

Eu - Você ia me chamar para sair?

Ele - Sim.

Eu - Mas por que eu?

Ele - Gostei de você. Você me conquistou com seu jeito misterioso.
Tenho te observado desde a primeira aula de inglês.

Eu - Eu nunca tinha te reparado.

Ele sorri. O celular dele toca, ele atende e diz:

Ele - Desculpa, tenho que ir agora. (Com cara de preocupado)

Eu - Aconteceu alguma coisa?

Ele - Meu cachorro foi atropelado.

Eu - Posso ir com você?

Ele - Claro!

Fomos para a casa dele. Chegando lá a irmã mais nova dele, chora incontrolavelmente.
Eu sem saber o que fazer e o que dizer, fico quieta só observando.
O cachorro praticamente era da família, pois todos estavam chorando. Ouvi o médico-veterinário dizer que o cachorro só tinha sofrido uma batida e que passava bem. Todos ficam aliviados.
A alegria foi tanta que nem me notaram ali. Normal, ninguém nunca me nota.
Eu fiquei do lado de fora esperando o garoto. Quando ele percebeu que eu não estava lá. Foi para fora e me viu encostada no carro. Ele disse para eu entrar, mas eu achei melhor não. Só tinha ido por causa dele, mas não sabia que a família era tão ligada ao cão. Ele me levou até a minha casa, me deu um beijo no rosto e disse boa noite.

Na escola, no recreio ele senta do meu lado.

Ele - Quer sair comigo?

Eu - ...

Continua

(Nanda Oly)

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